AOS QUE SOFREM

No dia 23 de abril de 1957, um acidente ocorrido em minha residência fez-me fraturar o braço esquerdo. Imobilizada durante vários dias, a sós com meus estudos e meditações, que de panoramas espirituais se desvendaram às minhas possibilidades mediúnicas, assim favorecidas por um estágio propício! Se, então, me foi dado o reconforto da presença dos meus companheiros de jornada terrena, que fraternalmente me visitavam, frequentes igualmente foram as visitas recebidas do mundo invisível, consoladoras e inefáveis, testemunhando às minhas convicções a intensidade faustosa, prodigiosa, dessa pátria que é nossa e a qual estamos perenemente ligados por laços de sagrada origem!

No terceiro dia após o acidente, um acontecimento verdadeiramente majestoso desenrolou-se diante de minhas percepções mediúnicas poderosamente exteriorizadas do âmbito físico-carnal. Apresentara-se à minha frente, encontrando-me eu ainda perfeitamente desperta, a querida entidade espiritual Charles, meu guia e mestre da Espiritualidade, amigo desvelado desde o berço, porque já o era também na vida espiritual.

[…]Submisso, meu espírito segue-o, enquanto o corpo, sobre uma cadeira de balanço, o braço envolto em faixas, se abandona a reconfortadora letargia…

[…]Charles tomou-me da mão com vigor e disse: — Narrar-te-ei a triste história de um coração que ainda hoje não conseguiu perdoar e esquecer integralmente a dor de uma ofensa grave… Ofereço-a àqueles que sofrem, aos que amam sem serem amados, aos que tardam em compreender que o segredo da felicidade de cada um e da humanidade em si mesma encontra-se na capacidade que possua cada coração para as virtudes do amor a Deus e ao próximo… Então as primeiras frases deste livro repercutiram em meu ser espiritual como se forças ignotas as decalcassem a fogo em meu cérebro. Charles falou… E as cenas do drama intenso que aqui transcrevo se moveram à minha visão sob sua palavra, entre tonalidades azuis e rosa, variadas ao indescritível, mostrando-me, entre outros acontecimentos, o terrível massacre de protestantes do dia de São Bartolomeu, durante o reinado de Carlos IX, na França, massacre cujos aspectos verdadeiramente infernais jamais poderá conceber o cérebro que os não haja presenciado!

[…]O certo foi que, sob o ardor da sua palavra, a tudo eu assisti e presenciei intensamente, com nitidez e encantamento, como se estivesse presente aos fatos, por vezes possuída de terrores, angústias e ansiedade, de outras embalada por deliciosas emoções de enternecimento e reconforto… E hoje, quando já ele voltou novamente a mim para guiar a minha mão e o meu lápis na transcrição do drama entrevisto então, no estado espiritual — entrego-o, em seu nome, aos corações que sentem dificuldades na concessão do perdão ao desafeto, aos que sofrem e choram no aprendizado redentor, a caminho do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo…

Yvonne A. Pereira Rio de Janeiro (RJ), 30 de outubro de 1959.

(Mensagem da autora no preâmbulo do livro do mês)