Trecho do capítulo 1 do livro de Outubro

Comemorava-se ainda em toda a França um dos maiores acontecimentos que sacudiram os seus destinos gloriosos e os destinos do mundo, porque nenhum acontecimento importante da França deixou jamais de se irradiar para além das suas fronteiras: Napoleão Bonaparte, jovem herói de inesquecíveis batalhas, […] o primeiro-cônsul do Diretório famoso, após a queda da realeza, sobre o qual tantas esperanças repousavam, fora coroado Imperador dos franceses, sob os mais lisonjeiros auspícios de um povo exausto de apreensões e sofrimentos, povo que estremecia ainda à trágica lembrança dos dias do Terror e da guerra da Vendéia, que regaram de sangue a pátria venerável. Era assunto preferido, em todas as comunidades da França, a capacidade do grande general para conduzir as rédeas do governo à altura conveniente a uma nação civilizada, seus predicados de político astuto e sagaz, sua ousadia de soldado. Muitos nobres franceses, exilados desde antes de 1793, regressavam agora à pátria, saudosos e confiantes, tolerando a usurpação do trono que, por direito, cabia aos Orléans, esperançados de uma fruição de paz permitida por um governo bem mais dignificante, porque um Império, do que aquele que se pretendera impor sob a inspiração da Convenção Nacional, enquanto antigos republicanos depunham opiniões liberais para servirem ao grande corso, que tantas glórias já conquistara para as armas francesas, elevando a pátria no conceito mundial. E, na cidade de Lyon, num extremo da grande nação, nascia aquele que seria o escolhido do Alto para oferecer ao mundo a mensagem do Consolador, que o Cristo prometera aos homens para seu conselheiro e protetor nas asperidades da existência: Hippolyte Léon Denizard Rivail, o Allan Kardec, autor da codificação do Espiritismo.

LIVRO DE OUTUBRO

O Drama da Bretanha

Pelo Espírito Charles – psic. de Yvonne Pereira

 

Este é o terceiro livro da trilogia do Espírito Charles pela psicografia de Yvonne Pereira. Este último foi iniciado pelo Espírito Roberto de Canalejas. Como ela afirma em seu prefácio, “reencarnou, porém, logo depois de haver iniciado o ditado, numa resolução inadiável, a bem do próprio progresso, e não conseguiu terminar a obra. Eu era, então, muito jovem e inexperiente, ensaiava a literatura mediúnica sob orientação dos mentores espirituais, logo após o desenvolvimento da faculdade psicográfica, e a obra saiu imperfeita. Passaram-se os anos. Eu temia destruir os manuscritos porque considerava bela a narração, e por isso guardava-os como recordação do amigo Roberto que, como Espírito, tantas provas de afeição me havia dado”.

Em 9 de março de 1972, ao redigir seu prefácio, ela continua: “Há cerca de sete meses, porém, quando eu já considerava nada mais haver a fazer com os apontamentos guardados, apresenta-se o amigo espiritual Charles e diz: – Reconstruiremos “o drama da Bretanha”. Seria injusto que perdêssemos uma obra que recebeu o beneplácito do Alto para ser divulgada. E hoje ofereço ao leitor estas páginas que, espero, poderão servir aos necessitados de amor e justiça.”

AO LEITOR

Tal como “O drama da Bretanha”, este novo romance foi-me ditado pelo Mundo Espiritual há quarenta anos. Seu primitivo autor foi, igualmente, a entidade espiritual que se nomeava Roberto de Canalejas. Mas, como ficou dito, essa entidade despediu-se para a reencarnação, e o livro ficou inacabado e imperfeito. Durante todo esse tempo mantive o arquivado, e jamais imaginei que um dia viria ele a ser concluído. Muitas vezes fui mesmo tentada a queimá-lo, a fim de desocupar gavetas que me eram necessárias. Mas, contive-me, esperando o futuro. Escrevi-o em minha mocidade, para concluí-lo já com os cabelos brancos.

Como vemos, a série […] foi ditada de trás para diante, pois o último livro foi, justamente, o primeiro a ser escrito, isto é, “O drama da Bretanha”. Nos dias presentes, ao receber ordem de ultimar o trabalho, surpreendi-me ao verificar que se tratava do prosseguimento do romance “Nas Voragens do Pecado”, obtido do Espaço em 1957-1958, o primeiro da série, portanto. À entidade Charles, amado amigo do Plano Espiritual, devo a conclusão e a revisão do presente volume. Não fora a sua paciência de iluminado e a boa-vontade em aproveitar páginas que tantos sacrifícios custaram a Roberto de Canalejas e a mim, e, certamente, se perderiam essas advertências doutrinárias que – quem sabe? -, poderão ser úteis a quem as ler.

Assim sendo, não tenho escrúpulos em dar a autoria de mais este livro à entidade Charles. Roberto esboçou-a, deixando-a, inacabada. Charles levantou-a, redigiu-a, concluiu-a.

Que o leitor a aceite com simpatia é o meu desejo.

Rio de Janeiro, 5 de setembro de 1972.

LIVRO DE SETEMBRO

O CAVALEIRO DE NUMIERS

Pelo Espírito Charles – psic. de Yvonne Pereira

Este romance dramático gira em torno dos sentimentos de amor, revolta, ódio, alegria, dor, coragem entre tantos outros comuns aos aspectos da vida carnal. A história se passa na França de Luís XIV no século XVII e narra a história de Espíritos que reencarnaram em conjunto para se auxiliarem de forma mútua. Neste livro, somos apresentados aos vieses da lei de ação e reação: os exemplos de heroísmo e dedicação de alguns se mesclam com os decessos dos outros, todavia, os benefícios das oportunidades geram vitórias libertadoras ou fracassos que serão corrigidos nas próximas encarnações. O cavaleiro de Numiers é o segundo livro da trilogia de romances escritos pela médium Yvonne A. Pereira, iniciada por Nas voragens do pecado e encerrado por O drama da Bretanha.

 

AOS QUE SOFREM

No dia 23 de abril de 1957, um acidente ocorrido em minha residência fez-me fraturar o braço esquerdo. Imobilizada durante vários dias, a sós com meus estudos e meditações, que de panoramas espirituais se desvendaram às minhas possibilidades mediúnicas, assim favorecidas por um estágio propício! Se, então, me foi dado o reconforto da presença dos meus companheiros de jornada terrena, que fraternalmente me visitavam, frequentes igualmente foram as visitas recebidas do mundo invisível, consoladoras e inefáveis, testemunhando às minhas convicções a intensidade faustosa, prodigiosa, dessa pátria que é nossa e a qual estamos perenemente ligados por laços de sagrada origem!

No terceiro dia após o acidente, um acontecimento verdadeiramente majestoso desenrolou-se diante de minhas percepções mediúnicas poderosamente exteriorizadas do âmbito físico-carnal. Apresentara-se à minha frente, encontrando-me eu ainda perfeitamente desperta, a querida entidade espiritual Charles, meu guia e mestre da Espiritualidade, amigo desvelado desde o berço, porque já o era também na vida espiritual.

[…]Submisso, meu espírito segue-o, enquanto o corpo, sobre uma cadeira de balanço, o braço envolto em faixas, se abandona a reconfortadora letargia…

[…]Charles tomou-me da mão com vigor e disse: — Narrar-te-ei a triste história de um coração que ainda hoje não conseguiu perdoar e esquecer integralmente a dor de uma ofensa grave… Ofereço-a àqueles que sofrem, aos que amam sem serem amados, aos que tardam em compreender que o segredo da felicidade de cada um e da humanidade em si mesma encontra-se na capacidade que possua cada coração para as virtudes do amor a Deus e ao próximo… Então as primeiras frases deste livro repercutiram em meu ser espiritual como se forças ignotas as decalcassem a fogo em meu cérebro. Charles falou… E as cenas do drama intenso que aqui transcrevo se moveram à minha visão sob sua palavra, entre tonalidades azuis e rosa, variadas ao indescritível, mostrando-me, entre outros acontecimentos, o terrível massacre de protestantes do dia de São Bartolomeu, durante o reinado de Carlos IX, na França, massacre cujos aspectos verdadeiramente infernais jamais poderá conceber o cérebro que os não haja presenciado!

[…]O certo foi que, sob o ardor da sua palavra, a tudo eu assisti e presenciei intensamente, com nitidez e encantamento, como se estivesse presente aos fatos, por vezes possuída de terrores, angústias e ansiedade, de outras embalada por deliciosas emoções de enternecimento e reconforto… E hoje, quando já ele voltou novamente a mim para guiar a minha mão e o meu lápis na transcrição do drama entrevisto então, no estado espiritual — entrego-o, em seu nome, aos corações que sentem dificuldades na concessão do perdão ao desafeto, aos que sofrem e choram no aprendizado redentor, a caminho do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo…

Yvonne A. Pereira Rio de Janeiro (RJ), 30 de outubro de 1959.

(Mensagem da autora no preâmbulo do livro do mês)