Trecho do capítulo 1 do livro de Outubro

Comemorava-se ainda em toda a França um dos maiores acontecimentos que sacudiram os seus destinos gloriosos e os destinos do mundo, porque nenhum acontecimento importante da França deixou jamais de se irradiar para além das suas fronteiras: Napoleão Bonaparte, jovem herói de inesquecíveis batalhas, […] o primeiro-cônsul do Diretório famoso, após a queda da realeza, sobre o qual tantas esperanças repousavam, fora coroado Imperador dos franceses, sob os mais lisonjeiros auspícios de um povo exausto de apreensões e sofrimentos, povo que estremecia ainda à trágica lembrança dos dias do Terror e da guerra da Vendéia, que regaram de sangue a pátria venerável. Era assunto preferido, em todas as comunidades da França, a capacidade do grande general para conduzir as rédeas do governo à altura conveniente a uma nação civilizada, seus predicados de político astuto e sagaz, sua ousadia de soldado. Muitos nobres franceses, exilados desde antes de 1793, regressavam agora à pátria, saudosos e confiantes, tolerando a usurpação do trono que, por direito, cabia aos Orléans, esperançados de uma fruição de paz permitida por um governo bem mais dignificante, porque um Império, do que aquele que se pretendera impor sob a inspiração da Convenção Nacional, enquanto antigos republicanos depunham opiniões liberais para servirem ao grande corso, que tantas glórias já conquistara para as armas francesas, elevando a pátria no conceito mundial. E, na cidade de Lyon, num extremo da grande nação, nascia aquele que seria o escolhido do Alto para oferecer ao mundo a mensagem do Consolador, que o Cristo prometera aos homens para seu conselheiro e protetor nas asperidades da existência: Hippolyte Léon Denizard Rivail, o Allan Kardec, autor da codificação do Espiritismo.